TCE aponta irregularidades na convocação de concursados da Funsaúde e pede plano de ação

Relatório técnico indica 1.685 vagas ociosas e cobra substituição de cooperativas por profissionais aprovados

Por Nícolas Paulino 25/06/2026 - 09:27 hs
Foto: Fabiane de Paula
TCE aponta irregularidades na convocação de concursados da Funsaúde e pede plano de ação
Tribunal de Contas monitora o chamamento de profissionais de concurso realizado em 2021

O Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE) endureceu a cobrança sobre o Governo do Ceará em relação ao chamamento de aprovados no concurso da extinta Fundação Regional de Saúde (Funsaúde), bem como o preenchimento de quase 1.700 vagas para assistência à população. 

Um novo relatório de instrução da Secretaria de Controle Externo (Secex), concluído em 15 de junho, aponta que a gestão estadual não preencheu a totalidade das vagas previstas no concurso, mantendo profissionais aprovados no cadastro de reserva enquanto utiliza contratos considerados “precários” com cooperativas para suprir o déficit na saúde pública.

Em março de 2026, quando o concurso perdeu oficialmente a validade, a discussão girava em torno de uma petição inicial do Ministério Público de Contas (MPC), que estimava 1.212 vagas ociosas. 

Naquela época, o TCE solicitou esclarecimentos preliminares, e a Sesa alegou que já havia cumprido "rigorosamente" a lei ao convocar os 6.000 aprovados previstos originalmente no certame, negando a existência de previsão legal para chamar o cadastro de reserva.

O novo relatório, de junho, avança para uma análise de mérito pela área técnica do TCE e rejeita as justificativas do Governo. A principal novidade é a atualização do número de vagas ociosas para 1.685, sendo 1.451 oriundas de desistências e 234 de exonerações registradas até o mês de março. 

O documento técnico do Tribunal conclui que houve "preterição arbitrária e imotivada", pois o Estado teria ignorado jurisprudências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que garantem o direito de nomeação aos candidatos da reserva quando surgem vacâncias dentro do prazo de validade do certame.

Órgão exige plano de ação diante de déficit de profissionais na rede estadual de saúde.

Legenda: Órgão exige plano de ação diante de déficit de profissionais na rede estadual de saúde.Foto: Fabiane de Paula.

O que previa o concurso?

O concurso da Funsaúde foi realizado em 2021 para preencher 6.000 vagas nas áreas médica, assistencial e administrativa. Em abril de 2023, o Governo do Estado decidiu extinguir a Fundação e determinou que os aprovados fossem incorporados diretamente ao quadro da Secretaria da Saúde (Sesa).

A Lei Estadual nº 18.338/2023 estabeleceu um cronograma de convocações até 2026 e previu a redução progressiva dos serviços de cooperativas de saúde à medida que os concursados assumissem seus postos. 

No entanto, candidatos e órgãos de controle denunciam que o Governo não está repondo as vagas de quem desiste ou pede exoneração, preferindo manter as terceirizações.

Déficit na saúde

O TCE cita nominalmente como responsáveis o governador Elmano de Freitas e a secretária da Saúde, Tânia Mara Coelho. A unidade técnica propõe a audiência de ambos para que apresentem justificativas, sob risco de aplicação de multa.

A gravidade da situação é reforçada por uma lacuna no sistema público: o Tribunal calculou um déficit total de 8.103 cargos vagos na Sesa, o que representa cerca de 39% do quadro de pessoal da Secretaria. 

O relatório destaca que esse vácuo é preenchido por uma rede de 79 contratos ativos com cooperativas médicas e 131 para funções assistenciais, como enfermagem e fisioterapia.

Providências esperadas do Governo

A partir da análise, o TCE aguarda uma ação concreta do Poder Executivo. Entre os pedidos da entidade, destaca-se a assinatura de um prazo para que o Governo apresente um plano de ação detalhado, que deve conter:

O preenchimento imediato das 1.685 vagas ociosas por meio da reclassificação e convocação do cadastro de reserva; A substituição gradual das contratações precárias (cooperativas e terceirizadas) por servidores efetivos, regularizando o quadro da Sesa conforme exige a Constituição.

Para o TCE, a manutenção das cooperativas para funções permanentes, enquanto existem concursados aguardando, caracteriza uma "ineficiência do concurso" e um risco de descontinuidade dos serviços essenciais prestados à população.

Para representantes dos aprovados ouvidos pela reportagem, o TCE "nos passa uma confiança de que a decisão vai trazer mais profissionais para somar ao Sistema Único de Saúde (SUS)" para atender à população cearense.

O que diz a Sesa?

Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a Sesa informou que, “até o momento, não foi intimada acerca do documento mencionado”.

Em março, a Pasta já havia declarado que o Governo do Ceará “cumpriu rigorosamente a Lei nº 18.338/23, finalizando em 2026 o chamamento de todos os 6 mil profissionais aprovados no certame”.

Além disso, segundo o relatório do TCE, a representação da Sesa argumentou em oitiva que o Estado agiu de acordo com a Lei nº 18.338/2023 e que a contratação das cooperativas para prestação de serviço complementar é “legítima”.

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